Os desafios e as perspectivas no Ministério da Justiça e Segurança Pública com a nomeação de Ricardo Lewandowski

O Brasil se encheu de esperança com a anunciada nomeação, recente, de Ricardo Lewandowski para o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Trata-se de ponto nevrálgico e estratégico e muitas são as expectativas sobre a forma como serão conduzidos os trabalhos com nova gestão. Há, afinal, demandas urgentes – algumas, históricas, e outras que necessitam, não de hoje, de um freio que impeça o avanço da criminalidade e a sensação de injustiça e de impunidade.

Sabe-se que o Estado Moderno, tal como foi idealizado pelos liberais, continha uma única garantia aos cidadãos: a Segurança Pública. Como reconheceu-se mais tarde, tal promessa era utópica – sem o reconhecimento dos Direitos Humanos, em nada estimulava os cidadãos a aderirem ao pacto social proposto.

Um novo desenho foi apresentado, a partir da Constituição Federal de 1988 – o do Estado e da Sociedade do Bem-Estar Social. Nesta configuração, a sociedade torna-se corresponsável pela formulação de políticas sociais de apoio e de atenção a vítimas.

O mais novo ministro da Justiça e Segurança Pública chega para ocupar o posto ao passo em que se aguarda apoio governamental na aprovação do Estatuto da Vítima (projeto de lei 3.890-2020), que conta, desde 2022, com pedido de urgência junto na Presidência da Câmara dos Deputados. Infelizmente, no entanto, não há, até o momento, previsão de apreciação do requerimento em tela.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) já mostraram indicativos seguros ao Poder Legislativo quanto à necessidade de disponibilização à sociedade dessa ferramenta, por meio de resoluções e campanhas de proteção integral dos direitos das vítimas.

Aliás, a sociedade mudou, e o mundo mudou, e muito, também! Não se está mais falando em contenção do poder do soberano frente aos súditos, mas, sim, em cidadãos plenos e mais conscientes de seus direitos e deveres em meio a um Estado Constitucional.

A criminalização da violência institucional é um indício do que digo – é impossível falar-se em juízo de garantia com a balança pendente apenas para o lado daquele que praticou uma infração penal. É preciso se encontrar o equilíbrio entre valores e interesses, no qual as penas e as medidas sejam céleres, justas, proporcionais, e, sobretudo, aplicadas com humanidade para ambas as partes: autores de infrações penais e vítimas.

Outro tópico a ser enfrentado pelo mais novo ministro da Justiça e Segurança Publica tem a ver com a política resolutiva de acolhimento para refugiados. Afinal, nada adianta abrir as portas do Brasil, se nada for feito para o reconhecimento da capacitação profissional desses indocumentados em seus países, com direito ao fornecimento de algo básico, como, por exemplo, a tradução de documentos.

Igualmente importante é o fomento às práticas restaurativas, por meio de editais que respeitem a sua origem verdadeiramente social, evitando-se, assim, sua deturpação, com a aplicação de regras processuais que foram idealizadas para outro modelo de Estado de Direito.

Faz-se necessário, também, o investimento sério e seguro em políticas de segurança digital, com o forte combate e prevenção a crimes praticados mediante fraude e que, há muito, assolam o País.

O verdadeiro desafio de Ricardo Lewandowski, porém, é interno. Reside na criação de um Gabinete, verdadeiramente, ativo e democrático, e na escolha prudente de cada pessoa que vai integrar o Ministério. É providencial que a estrutura seja ocupada por pessoas que, realmente, queiram fazer diferente e não se escondam por trás de burocracias inacessíveis aos movimentos sociais, ao cidadão comum e às instituições, como é o caso do Ministério Público (MP), do Poder Legislativo e do Poder Judiciário.

O Instituto Pró-Vítima parabeniza o novo ministro por sua escolha, lhe almeja uma profícua gestão e se coloca à disposição para contribuir com os novos capítulos da Justiça e da Segurança Pública do Brasil.

*Celeste Leite dos Santos é doutora em Direito Civil, mestre em Direito Penal, promotora de Justiça em último grau no Ministério Público (MP) de São Paulo, presidente do Instituto Pró-Vitima, e idealizadora do Estatuto da Vítima, do Infovítimas Brasil, e da lei federal de Importunação Sexual.

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
Instituto PróVítima
Instituto PróVítima

O PRÓVÍTIMA (Instituto Brasileiro de Atenção e Proteção Integral às Vítimas) é uma associação de atenção e proteção integral à vítimas, sem fins lucrativos, independente de empresas, partidos ou governos.

Quem Somos
PróVítima

O PROVITIMA (Instituto Brasileiro de Atenção e Proteção Integral às Vítimas) é uma associação de atenção e proteção integral à vítimas, sem fins lucrativos, independente de empresas, partidos ou governos.

Compartilhe
Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter